
O carácter galaico-português, popular e feminino
A cantiga de amigo nasceu na comunidade rural, como complemento do bailado e do canto colectivo dos ritos primaveris, próprios das civilizações agrícolas em que a mulher goza da maior importância social; e é assim que, não apenas na Península ou na România, mas em povos tão distantes como o chinês se verificam vestígios, quer do paralelismo, quer da cantiga de mulher.Transplantada a outros meios, as suas formas variaram e, em muitos sentidos, enriqueceram-se, ao mesmo tempo que se adaptavam a novos temas caracte-rísticos de uma civilização adiantada. O primitivismo de muitas cantigas de amigo constitui precisamente a sua principal atracção para muitos leitores [...]. Há, por exemplo, em alguns cantares de amigo uma intimidade espontânea com a natureza [...] deve relacionar-se com o animismo típico de certa mentalidade primitiva. Dir-se-ia existir uma afinidade mágica entre as pessoas e tudo o que parece mover-se ou transformar-se por uma força interna: a água da fonte e do rio, as ondas do mar, as flores da Primavera ou Verão, os cervos, a luz da alva, a dos olhos. Todas estas coisas participavam ainda de tantas associações mágicas, as suas designações evocavam tantas correspondências entre o impulso amoroso e o florescer das árvores, os actos dos animais, os movimentos das coisas mais presentes, que o esquema repetitivo era como o imperceptível e pequeno desenvolvimento de um tema através de modulações que sugerem os seus inesgotáveis nexos vitais. Um dos factos mais reveladores do carácter popular do nosso lirismo está na importância nele desempenhada pela mulher. Documentos antigos de origem eclesiástica provam-nos que havia na România uma poesia popular, detestada pela Igreja, carmina amatoria, turpia, nefaria, cujo principal agente era a mulher. Tal poesia chegava a invadir a própria Igreja e escandalizar a seriedade do culto. Essa arte feminina deveria ter florescido intensamente na Galiza e ainda na Andaluzia, a julgar pelas carjas moçárabes. Temos notícia de que as mulheres desempenhavam papel importante nas grandes cerimónias religiosas de Santiago de Compostela. O ofício de cantora e bailadeira estava, pois, como que oficializado e incorporado nas festividades da Igreja. Com o advento do trovadorismo, que separou em teoria o trabalho da composição e o da execução, encarregando do primeiro o trovador e do segundo o jogral, o papel da jogralesca decaiu, ou antes, transformou-se: de cantora e talvez de poetisa passou a dançarina (soldadura). As vinhetas curiosíssimas do Cancioneiro da Ajuda mostram-nos ao vivo essa evolução, figurando em atitudes elegantíssimas os três agentes da arte: o trovador, sentado no escabelo, com o rolo das cantigas, o jogral tangendo a cítola, e a soldadeira bailando ao som do adufe e das castanhetas. Praticamente, porém, a moça galego-portuguesa continuava a ser, em competição com o homem, o mais poderoso agente do lirismo popular. Ainda na segunda metade do século xvm, o grande polígrafo galego Fray Martin Sarmiento notava que na Galiza e em Portugal «toda a moça de cântaro era poetisa». O cancioneiro popular mostra-nos ainda hoje o feminismo acentuado da nossa poesia lírica; e não é certamente devido ao acaso que a Galiza possui na sua história literária o mais admirável temperamento lírico da Península e talvez da Europa: Rosália Castro. De resto, as próprias condições sociais favorecem a emulação e a igualdade: no século XII, o homem abandonava o lar à companheira, com a ida para a guerra; no século xx, o amor da aventura e sobretudo a miséria fazem emigrar o homem, mas a terra florirá e fruteará, cavada pelas mãos da mulher. Se não compreendermos esta dura e admirável competição, a feminidade da vida/ social e da cultura galego-portuguesa, não teremos compreendido a nossa antiga poesia lírica. Esse aspecto dá um carácter absolu¬tamente sui generis ao velho lirismo galego-português, se o compararmos com os outros lirismos românicos, em que a canção de mulher é muito menos frequente. Outro rasgo distintivo é o ambiente familiar e burguês a que essa poesia nos conduz: é uma poesia de intimidades domés¬ticas e nisso reside o seu irresistível encanto, a sua veracidade. Estamos longe das pequenas cortes da Provença e do alto amor dos seus trovadores. A poesia de amigo, entre nós, reflecte um ideal de vida muito menos elevado e muito mais humano: a donzela, sob a guarda da mãe, confia-nos os mil e um incidentes psicológicos da sua vida sentimental, do seu namoro ou da sua paixão. Esse «lirismo antigo de feição popular, presume um conjunto de condições de ordem social, que o afasta tanto dos meios aristocráticos como propriamente das classes ínfimas. E, na sua essência, um lirismo burguês, conservador» (R. Lapa, Das Origens, 245). Por isso não é de estranhar que o seu principal promotor, além do clérigo, seja o segrel, designação peninsular que inculca o cavaleiro modesto, e parece por consequência traduzir a condição social do cavaleiro-vilão. Isto pelo que respeita ao fundo social da cantiga. No que toca aos temas, também encontramos nela, em especial na cantiga paralelística, um conjunto de motivos folclóricos, muito mais importante do que o oferecido pela antiga poesia francesa, e que pode reduzir-se ao culto das árvores, dos animais e das fontes, nas suas várias modalidades. O enlace do tema folclórico com a situação sentimental dá por vezes à cantiga um ar de inefável mistério.
Rodrigues Lapa, Lições de Literatura Portuguesa, Época Medieval



